terça-feira, 27 de abril de 2010

DE RERVM NATVRA (ou um post sobre mudanças e medos)

Desde sempre usou os mesmos óculos pretos de aro grosso, os mesmos cabelos loiros bagunçados que nem com gel, pomada e reza forte ficam no lugar. O mesmo tipo de roupa: tênis branco (ou vermelho), calça jeans azul - a única coisa que mudara era o tipo: antes era de boca larga (ai, a moda dos anos 2000) e agora skinny - e as mesmas camisetas sempre brancas, pretas ou vermelhas. Sempre com uma mochila nas costas, sempre de tons escuros. Os mesmo olhos sem cor definida (castanho, verdes, por que não se decidem?). As mesmas manias, o mesmo jeito esquisito, a mesma forma estranha de andar, o mesmo jeito incansável de resmungar como uma velha, os mesmos praguejos violentos, o mesmo vocabulário incomum, as mesmas companhias. O mesmo rancor, sempre aumentando, de tudo que fazem pra si, e consequentemente uma futura úlcera ou ponte de safena. A mesma pessoa de sempre.

Entretanto, alguma coisa mudou. Alguma coisa ainda está mudando. Sentia-se diferente. Internamente.
Mesmo sendo a mesma pessoa, não era a mesma pessoa. Lembrava-se do seu passado nem-tão-distante-assim. Sete anos se passaram e a diferença era notável. Já haviam jogado este fato em sua cara: "você virou uma pessoa asquerosa". De vez em quando o seu "novo eu" inspirava raiva gratuita ou somente uma antipatia das brabas. Gostava disso por não gostar das pessoas no geral, salve uns poucos gatos pingados. Jogam na sua cara o "fato" de ter virado uma pessoa egoísta, mesquinha e fria. Pff. Tudo isso só porque havia decidido que não aguentaria mais algumas atitudes escrotas de terceiros. E depois ela que era egoísta. ela que era criança. Tudo isso porque havia trocado a consideração que sentia pelos outros por um pouco de amor próprio. Ah vá.

Consequentemente virou uma pessoa mais sozinha, sempre com a cara enfiada num computador, num videogame, no seu caderno de rascunhos dramáticos (era como ela chamava seu caderno de desenho) ou em algum livro que despertasse seu interesse (aliás, tinha um gosto estranho para livros. Adorava livros sobre máfia, gangsters, gatos, bêbados, viagens de drogas, zumbis ou filhos-da-puta num geral).

Os pensamentos também estão mudando. Sente como se tivessem tirado uma venda de frente dos seus olhos e agora ela consegue ver um pouco além. Começou finalmente a pensar no seu futuro, um futuro concreto, coisa pra daqui anos. Trabalhar, estudar, tem grana, não depender mais de pai ou mãe, que um dia infelizmente morrerão. Construir alguma coisa para si (ela não consegue pensar no plural). Ter como se manter. Tem medo de futuramente não ter como pagar tudo o que precisa: plano de saúde, contas, roupas, alimentação. De não ter onde cair morta. De chegar na velhice e virar uma mendiga doida que mostra os peitos no semáforo e conversa com um inimigo imaginários aos berros e xingos. Tem medo de ter filhos e não conseguir dar tudo o que teve para eles: uma boa educação, um bom lar, uma família estruturada (bem, isso ela não teve tanto assim), boas condições. Uma casa, ainda que pequena. Definitivamente ela precisa cuidar mais da saúde, já que um dia talvez tenha pequenos infantes dependendo dela. Pensava em sua mãe e sentia vergonha de tudo de horrível que já falara pra ela. Agora ela entendia todo o sacrifício que ela fizera, de não ver seus filhos crescendo para trabalhar e dar do bom e do melhor para eles. Estaria ela crescendo? Amadurecendo? Estava finalmente percebendo que a vida não se resumia só em fins-de-semana animados, passeios com os amigos, compulsões alimentares e gastos desnecessários em caprichos capitalistas. Era algo mais. Ela não tinha mais 12 anos. Precisa fazer algo por si, ela PRECISA aprender a contar consigo mesma e sair de debaixo das asas dos pais. Já perdera muito tempo na vida sendo uma criancinha mimada que achava que a adolescência seria eterna. Olhou para seu irmão e viu o exemplo que sempre havia passado despercebido. Seela tivesse notado antes, talvez estivesse muito melhor hoje. Infelizmente nunca fora próxima de seu irmão desde os 7 anos de idade. Nunca tivera a liberdade de sentar e conversar as coisas da vida com ele que, mesmo sendo 5 anos mais velho, sempre teve uma visão madura da vida. E sentia por essa distância.

Dando o último gole em seu café, notou que precisou de 21 anos para perceber que já havia desperdiçado 1/4 da vida.






Mas "it's never late to get it back".



Há 2 anos, quando eu dava aulas de física.







ouvindo: o teclado barulhento da colega de trabalho e um prego sendo martelado no andar de cima.
Ela odeia barulhos repetitivos, aliás.

6 comentários:

Ella disse...

Eu também pensei que a adolecencia seria eterna. Acho que todo mundo pensa um dia.
Mas é bom cair na real.



E VC É A MINHA PROFESSORA DE EA. ok?

cowy disse...

achei bonito que você viu isso. sem ironia, nem mimimi só pra te deixar putinha (por mais que seja divertido) nem nada. e eu sabia que uma hora ou outra você ia perceber esse monte de coisa. fico feliz por ter sido antes do que eu achava que seria. parabéns.

antes que for achar que é cuzonice minha, só tô retribuindo o comentário no meu blog, como se eu nunca tivesse te conhecido.

Adelle disse...

acho que estou apaixonada.

Praguejento disse...

antes aos 21 do que nunca.

eu ainda não acordei pra muita coisa da vida, mas meu interior também mudou bastante.

nem me reconheço mais.

LubaLuba disse...

não só você. a diferença é que eu já realizei isso tudo e não fiz nada pra mudar... e temo não fazer.
o medo é uma coisa terrível. e como eu sou uma criança idiota e sensivel, acho que chorar vai mudar alguma coisa. só disperdiço tempo e faço minhas glândulas lacrimais trabalharem a todo vapor retirando água de meus tecidos e me deixando desidratada.
e a garrafinha menina, ganhei no posto Shell HHAHAHAHAH numa dessas promoções escrotas em que se ganhas as coisas mais idiotas :D

Geek disse...

faz alguns dias que descobri seu blog e já na primeira leitura me apaixonei pelo seu senso de humor rude! você além de ser engraçada ao seu modo, é gata também (se não for zarolha, né?)