quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Como será minha demissão segunda-feira.

Segunda-feira a filha do meu chefe volta do Caribe, onde ela passou um mês em parques teóricos temáticos dos Piratas do Caribe e em festas do branco.
Sim, a filha dele, que deseja que eu faça serviço de telemarketing ativo pra vender uma coisa que ninguém quer pra um monte de médico mão-de-vaca. Ela tinha me dado uma meta de 155 pessoas para ligar até dia 31 e eu obviamente relutei, expliquei pra ela que era inútil, que ninguém quer pagar por coisa nenhuma e que é desperdício. Ela foi viajar e eu fiquei jogando Pokémon no emulador de Gameboy que eu baixei. Não liguei pra uma alma viva e obviamente ela vai chegar cobrando serviço e eu já até sei como vai ser a cena.
Vai ser mais ou menos assim:
Segunda-feira, 14:05 da tarde, eu chego no escritório, dou oi pra todo mundo, sento meu rabão branquelo nessa cadeira, abro o twitter e nem confiança pra ninguém.
Aí ela vai estar em horário de almoço, porque se tem uma coisa que essa cidadã sabe fazer é ir almoçar.
Quando ela chegar será 15h da tarde, ela vai chegar, usar o banheiro, beber água, reclamar do calor, ficar quieta por 15 minutos respondendo e-mail do marido dela, das amigas dela e da putaquepariu. Então ela vai levantar o cu daquela cadeira e vai vir aqui do meu ladinho e vai perguntar se estava tudo bem na ausência dela e eu vou responder que "melhor, impossível". Aí ela vai perguntar se eu liguei para os 155 prestadores da Unimerd Casa-do-Caralho pra oferecer nosso serviços e eu vou olhar profundamente nos olhos dela e dizer "não". Somente isso. Não.
- E porque não? - ela vai me perguntar, com aquela maneira escrota de articular a letra P que só quem fez intercâmbio consegue.
- Olha, serei sincera. Não liguei por vários motivos, que eu até enumerei mentalmente para você.
01- porque eu não quis.
02- porque não está no meu contrato.
03- porque não estou sendo paga pra isso.
04- porque você não pode me obrigar.
05- porque você disse que isso seria um desafio, e eu não topei o seu desafio.
06- fugi minha vida toda de telemarketing e não vai ser você quem vai me obrigar a entrar pra esse inferno.
07- não sou obrigada a passar nervoso em skype só porque vocês são mãos de vaca o suficiente para não querer pagar conta de telefone.
08- você não é da parte de "novos negócios"? então isso é trabalho seu. me paga um salário igual o que você recebe que eu ofereceria nossos serviços até para o capeta.
09- bela merda essa sua história de querer desenvolver nosso potencial. potencial para cometer um crime, tipo entrar nesse escritório com uma arma e meter uma bala na cabeça de cada um que estiver aqui. nunca se sabe o tipo de louco que se tem por perto. poderia muito bem ser uma surtada que estava esperando só a gota d'água pra transbordar de ódio, perder a noção de tudo e cortar suas cabecinhas com um belo de um machado bem afiado que cortaria sua carne flácida como quem corta um tablete de manteiga em temperatura ambiente.
(Tyler's words coming out my mouth)
10- NÃO GOSTOU, ME DEMITE. EU NÃO VOU FAZER ESSE TRABALHO DE MERDA DE FICAR IMPORTUNANDO AS PESSOAS VENDENDO UMA COISA QUE ELAS PODERIAM TER DE GRAÇA.
-É isso.
Então ela vai me olhar horrorizada, a cara estática, um único tique na pálpebra esquerda. Vai ficar assim por alguns minutos, pensando se chama a polícia, se me deixa quieta no meu canto e sai bem devagar como se eu fosse um cachorro raivoso ou se começa a falar meia dúzia de desaforo. Então ela vai olhar para minha mão, que a essa hora estará segurando um pesado grampeador, de aspecto perigoso apertado entre meus dedos. Daí ela simplesmente dirá: passe no rh.
Serei demitida.
Voltarei para minha mesa, pegarei minhas tranqueiras da minha gaveta, que incluem uma caixa metálica de cigarros (vazia), uns 5 recibos de pagamento, uma agenda de 2010 toda desenhada, umas 20 folhas de estudos de sombreamento e ângulos, uma garrafa vazia, 3 pares de hashi,  5 adesivos da Dilma devidamente recortados, uma dentadura de vampiro, um treco de surpresinha de kinderovo sujo de orégano dentro (não perguntem) e por último, um isqueiro verde meio derretido de tão vagabundo. Enfio tudo isso numa sacola, soco dentro da mochila, digo tchau, olho bem nos olhos dela e saio pela porta, diva, com o queixo erguido pra não mostrar as dobras de banha.

Sobem os créditos.

3 comentários:

Blog? disse...

e quando pensar em uma reclamação trabalhista lembre de mim....

Mariana Bennemann disse...

Não esquecerei!

LubaLuba disse...

Escorre uma lânguida lágrima de meu olho direito.